Entre o Silêncio e o Possível

Acordo antes do sol,
mas não é a luz que me desperta
é um peso antigo, viscoso,
que repousa sobre o peito
como se a própria manhã
pedisse desculpas por existir.

Levanto-me por inércia,
um corpo que cumpre rituais
sem a bênção da vontade.
O mundo passa por mim
com risos que não me pertencem,
vozes que ecoam
num idioma que desaprendi a sentir.

Há um vazio elegante em mim,
quase sereno em sua crueldade,
como um salão vasto
onde outrora dançavam afetos
e agora apenas o eco
faz companhia ao meu nome.

Caminho entre pessoas
como quem atravessa um sonho alheio,
vendo bocas sorrirem
com a mesma distância
de quem observa estrelas mortas.

Pergunto-me em que esquina da alma
deixei cair a centelha
em que instante distraído
abandonei o mapa
que levava de volta a mim.

Às vezes penso
que desaparecer seria apenas
um gesto discreto do universo,
uma página virada sem ruído,
e que talvez ninguém notasse
o silêncio onde antes havia minha respiração.

Mas, em algum lugar quase imperceptível,
existe ainda uma fresta
ínfima, teimosa
por onde imagino
que a sensação de existir
possa um dia voltar a florescer.

Não como fogos de artifício,
mas como a primeira gota de chuva
num deserto paciente.

E sigo…
não por coragem, talvez,
mas por uma curiosidade fatigada
de saber se, em algum amanhecer improvável,
meu coração recordará
o antigo ofício de sentir.

Até lá, carrego este crepúsculo dentro do peito,
um dia após o outro,
como quem guarda uma carta não lida
esperando que, em algum momento,
as palavras finalmente façam sentido.

Espírito de Ofélia

Eu te amei
como quem segura água nas mãos
sabendo que escorreria,
mas tentando mesmo assim.

Te amei com a devoção
de quem acredita que o amor
é altar e sacrifício
ao mesmo tempo.

Meu coração era um jardim
plantado com o teu nome,
e cada flor que nascia
sabia o som da tua voz.

Mas você era tempestade.
E eu…
eu era apenas pétala.

Quando me pediste distância,
obedeci como quem rasga a própria pele
sem gritar
porque amar também é calar.

Entre o dever e o desejo
eu me perdi de mim.
Fui filha antes de ser mulher,
fui silêncio antes de ser amada.

E quando teu olhar
já não pousava mais em mim
com ternura,
algo dentro do meu peito
começou a afundar.

Meu pai caiu pelas tuas mãos,
e junto dele
caiu o último fio
que me prendia à lucidez.

Passei a cantar para as águas,
confiando segredos ao vento,
colhendo flores como quem colhe
os pedaços da própria alma.

Diziam que era loucura.
Mas era excesso de amor
num mundo que só sabia ferir.

E naquela tarde pálida,
entre lírios e ramos partidos,
deitei-me sobre o espelho do rio
como quem se entrega
ao único abraço
que não rejeita.

A água me recebeu
com mais delicadeza
do que teus braços
jamais receberam.

Afundei lentamente,
não por desespero
mas por cansaço.

Porque amar sozinha
é morrer aos poucos.

E se perguntarem por mim,
diz que fui flor
que floresceu demais
num inverno que não a quis.

Diz que meu amor
era vasto como o mar
e que nele
eu mesma me perdi.

Catedral do Medo

Acordo antes do sol,
mas não é a luz que me desperta
é o peso invisível
que repousa sobre o meu peito.

Há uma catedral de apreensões
erigida dentro de mim,
onde cada pensamento ecoa
como um sino fúnebre anunciando
um desastre que nunca chega,
mas nunca deixa de ameaçar.

Vivo na iminência do improvável.
Qualquer silêncio vira presságio,
qualquer olhar, julgamento,
qualquer passo, precipício.

Tenho medo do ridículo,
do tropeço público,
de falhar diante de olhos imaginários
que me condenam sem piedade.
E ainda que nada aconteça,
meu corpo já treme como se o mundo
tivesse ruído.

Meus pensamentos são aves inquietas,
batem contra as paredes da mente,
repetem imagens indesejadas,
cenas que não escolhi assistir.
Não tenho domínio sobre essa orquestra caótica
que insiste em tocar
mesmo quando imploro silêncio.

Depois das tempestades da vida,
fico em vigília eterna.
O pavor se instala
como hóspede permanente.
Minha musculatura vive em estado de guerra,
cada fibra tensionada
como se eu precisasse fugir
de um perigo sem rosto.

As dores florescem pelo corpo
como cicatrizes que ninguém vê.
O estômago se contorce em revolta,
o intestino protesta em descompasso,
como se também ele soubesse
que estou à beira de algo
sempre à beira.

Dormir é um território hostil.
Deito, mas não descanso.
Minha mente não aceita tréguas,
não se desconecta,
não silencia.

E há essa sensação cruel de insuficiência,
de não ser bastante,
de estar sempre devendo ao mundo
uma versão melhor de mim.
Caminho triste,
sem motivo exato,
como quem perdeu algo
que jamais soube nomear.

Às vezes sinto que vou morrer.
Assim, de repente.
Como se o coração estivesse prestes a desistir
ou como se o ar resolvesse
não voltar.

E me pergunto, em segredo:
isso um dia vai me deixar?

Será que haverá uma manhã
em que acordarei leve,
sem a expectativa do abismo?
Um dia em que o silêncio
não soe como ameaça,
mas como paz?

Enquanto isso,
respiro como posso,
sobrevivo como sei,
e carrego dentro de mim
essa guerra invisível
que o mundo chama de ansiedade
mas que, para mim,
é simplesmente viver
à sombra do medo.

Carta Para o Tempo

Olá, Tempo
sou eu, teu velho amigo.
Escrevo-te agora porque desconfio
que já não terei tanto de ti quanto tive.
E antes que tu me leves,
quero te agradecer.

Obrigado pelo que me deste:
do primeiro berro molhado ao último suspiro maduro.
Obrigado pelo caminho inteiro,
mesmo quando tropecei nele.

Nasci chorando;
disso lembro pouco.
Mas vou partindo sorrindo,
pois fiz tudo o que desejei
ou ao menos tudo que tive coragem de desejar.

Obrigado pelos meus pais,
que não puderam estar sempre,
mas estiveram o bastante
para me ensinar a caminhar sem mãos.

Obrigado pelos amigos da infância:
não ficaram, é verdade,
mas a lembrança deles ainda brinca nos quintais
que guardo na memória.

Obrigado pelos sabores que pus na boca,
pelas doenças que sobrevivi,
pelos medos que me ensinaram prudência
e pelos erros que me ensinaram vergonha.

Obrigado pela profissão que hesitei em escolher,
mas que acabou escolhendo a mim.
Ali me encontrei,
ali me fiz útil,
ali aprendi a existir para mais alguém além de mim.

Obrigado pela mulher que caminhou ao meu lado
por quase toda a minha vida
ela, meu porto,
meu silêncio,
minha última casa.

Obrigado pelos filhos que vieram de nossas mãos:
foram bênçãos disfarçadas de trabalho,
amor que exige, amor que salva,
amor que fica até depois que a gente vai.

Obrigado pelos animais que me ensinaram
a alegria que não fala
e a saudade que não reclama.

Obrigado pelas pessoas que ficaram
e pelas que só passaram
umas foram abrigo,
outras foram vento;
mas até o vento leva folhas
a lugares que jamais iriam sozinhas.

Obrigado pela vida inteira que me deste,
pelos dias que me esqueceram
e pelos dias que guardarei até o fim.

E agora… agora o relógio
anda mais devagar que o coração.
Meu corpo se cala,
meus olhos piscam mais longos,
e as palavras começam a ficar pesadas
como quem se despede carregando mala.

Sei que em breve você me chamará
e não te temo.
Afinal, Tempo, foste justo comigo:
me deixaste viver,
me deixaste amar
e, acima de tudo, me deixaste lembrar.

Se eu puder pedir algo antes de ir:
cuida dos meus.
Que continues gentil com eles
como foste comigo.

E assim encerro esta carta
com o mesmo fôlego que encerra a vida:
lentamente,
em paz,
com gratidão.

Até breve, velho amigo…
o resto é silêncio.

Nada Pode Me Ferir – David Goggins

Nada Pode Me Ferir é uma autobiografia intensa e inspiradora de David Goggins, ex-militar das forças especiais dos Estados Unidos, ultramaratonista e palestrante motivacional. No livro, ele narra sua trajetória de uma infância marcada por abusos, pobreza, obesidade e baixa autoestima até se tornar um dos homens mais resistentes física e mentalmente do mundo.

Goggins mostra que sua maior batalha nunca foi contra o corpo, mas contra a mente. Ele defende que a dor, o desconforto e o medo não são inimigos, mas ferramentas de crescimento. Ao longo do livro, o autor apresenta o conceito de “callous the mind” (criar calos mentais), que consiste em se expor conscientemente a desafios para fortalecer a mente da mesma forma que o corpo se fortalece com o treino.

Um dos pontos centrais da obra é a ideia de que usamos apenas uma pequena parte do nosso verdadeiro potencial o que ele chama de Regra dos 40%. Quando acreditamos estar no limite, ainda temos muito mais a oferecer, mas desistimos cedo por conforto ou medo.

Mais do que motivação, Nada Pode Me Ferir é um livro sobre responsabilidade pessoal. Goggins não romantiza o sofrimento, mas deixa claro que ninguém virá nos salvar: a mudança começa quando encaramos nossas falhas, paramos de nos vitimizar e assumimos o controle da própria vida.

É uma leitura crua, direta e provocadora, indicada para quem busca disciplina, superação e uma mudança real de mentalidade não apenas frases bonitas, mas ação.

Depois que li Nada Pode Me Ferir, não me tornei David Goggins e nem era essa a intenção. Mas aprendi algo muito maior: a dor não vem para nos ferir, e sim para nos transformar. Ela chega como um convite silencioso ao crescimento pessoal. Desde essa leitura, passei a me exercitar todos os dias, hoje com muito mais intensidade do que antes. O cansaço, o desconforto e até a dor deixaram de ser inimigos e passaram a fazer parte do processo. E, surpreendentemente, a satisfação que isso me gera é enorme. É uma sensação poderosa, quase viciante. Doeu? Doeu. Mas eu adorei — porque sei que estou ficando mais forte, por dentro e por fora.

Há um trecho do livro em que David Goggins conta que treinava até debaixo de chuva sem desculpas, sem pausas. Aquilo me marcou profundamente. Talvez porque eu adore chuva. Não perco uma oportunidade. Já tomei banho de chuva, já treinei molhada, já deixei a água cair como se estivesse lavando não só o corpo, mas também a mente. A chuva me lembra que nem todo desconforto precisa ser evitado; alguns precisam ser vividos.

Fecho essa leitura com a certeza de que crescer quase nunca é confortável, mas sempre vale a pena. Às vezes, tudo o que a gente precisa é continuar mesmo cansado, mesmo molhado, mesmo doendo.
E você… qual foi a última vez que tomou um bom banho de chuva, sem pressa, sem medo?

N.

Eu te dei tudo o que cabia em mim,
e ainda assim não foi suficiente.
Não porque eu fosse pouco,
mas porque você nunca soube confiar
no amor que lhe estendi com as mãos abertas.

Sinto muito por todas as vezes
em que fiquei sozinha, mesmo ao seu lado.
Você ia embora com tanta facilidade
que parecia não haver passado,
não haver nós,
não haver nada que merecesse um último olhar.

Hoje, por amor-próprio, sou eu quem parte.
E dói mais do que todas as suas despedidas juntas.
Porque ir embora amando
é um tipo de coragem que sangra.

Não sei se essa tristeza um dia passa.
Ela mora no meu corpo,
aperta meu peito,
me faz desejar você mesmo sabendo
que desejar também machuca.
Meu corpo implora pela sua presença,
meu coração ainda pronuncia o seu nome,
mas uma parte cansada de mim
sabe exatamente o quanto você me fere.

Em que momento me tornei dependente
de alguém que só volta por pena?
Você não me ama —
você retorna quando a culpa pesa,
quando a solidão lhe assusta,
quando precisa de um lugar seguro
para repousar o que não sente.

E eu…
eu fico, eu espero, eu me parto.

Mas não mais.

Esta partida não é vingança,
é sobrevivência.
Preciso ir para não morrer um pouco mais a cada dia,
para silenciar essa dor que grita dentro de mim,
para juntar os cacos da dignidade
que você, sem perceber, foi quebrando.

Sinto muito.
Prometi que ficaria,
mas já não suporto te ver
e não ser escolhida.
Já não aceito ser alvo de risos,
de idas fáceis,
de amores pela metade.

Você sempre será o meu “e se”.
O amor que ficou.
A história que não foi.

E mesmo partindo,
confesso em silêncio:
esse amor nunca vai deixar de existir.

Mas eu preciso ir.
Porque amar sozinha…
me mata.

Cartas de um diabo a seu aprendiz

Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz é uma obra única e provocadora escrita por C. S. Lewis, publicada em 1942. O livro se apresenta como uma série de 31 cartas escritas por um demônio experiente, Maldonado, para seu sobrinho e aprendiz, Vermelindo, que está iniciando sua “carreira” tentando desviar um ser humano da fé cristã. Além do conteúdo profundo e instigante, a edição que li também é um verdadeiro encanto: um livro lindo, de capa dura, com páginas amareladas cheias de charme, que tornam a experiência de leitura ainda mais aconchegante e especial, como se cada carta carregasse o peso do tempo e da reflexão.

Ao longo dessa correspondência epistolar, Maldonado orienta Vermelindo sobre como explorar as fraquezas humanas e as sutilezas da vida cotidiana para afastar seu “paciente”  , um homem comum de Deus. Enquanto lia, fiquei impressionada com o quanto as estratégias descritas são silenciosas e realistas: valorizar pequenas distrações em vez de grandes pecados, alimentar o orgulho, o egoísmo e a hipocrisia, usar relações sociais como armadilhas e transformar virtudes em vícios quase imperceptíveis.

O grande diferencial da obra está justamente nesse ponto de vista invertido. Ao enxergarmos o mal pelos olhos dos próprios demônios, Lewis nos obriga a encarar nossas escolhas com mais honestidade. Entre sarcasmo e ironia, o autor aborda temas profundos como tentação, moralidade, livre-arbítrio e a luta espiritual interna e, confesso, em vários momentos me vi refletindo sobre atitudes que antes eu jamais questionaria.

Mesmo ambientado no contexto da Segunda Guerra Mundial, o livro é surpreendentemente atual. Seus ensinamentos atravessam o tempo porque falam da maneira como, muitas vezes sem perceber, somos distraídos, tentados e moldados por coisas pequenas, aparentemente inofensivas, mas constantes.

Ao terminar Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz, é impossível não sair diferente. Passei a desconfiar de pensamentos que antes pareciam inofensivos e a observar com mais atenção as pequenas concessões do dia a dia. O livro nos lembra que o afastamento do que é essencial raramente acontece de forma brusca  ele se constrói em distrações sutis e justificativas confortáveis. No fim, Lewis nos convida a um olhar mais atento para dentro de nós mesmos, porque a verdadeira batalha não acontece nos grandes acontecimentos, mas nos detalhes silenciosos da rotina, onde, sem perceber, decidimos quem estamos nos tornando.

Onde Começo a Me Escrever

Aqui começo, sem mapa ou direção,
Entre páginas lidas e versos do coração.
Chego leve, curiosa, sem medo do fim,
Pois cada palavra escrita começa em mim.

Fui leitora de mundos, refúgio e abrigo,
Encontrei em livros meu melhor amigo.
Mas hoje a história muda de tom:
Não só leio destinos — eu também os componho, então.

Escrevo porque sinto,
Escrevo porque arde,
Porque às vezes a alma pede
Silêncio… e a escrita responde mais tarde.

Entre poemas, resumos e pensamentos soltos,
Vou deixando pedaços meus nesses parágrafos tortos.
Não prometo perfeição, nem verdades finais,
Só palavras sinceras e sentimentos reais.

Este blog nasce simples, mas cheio de intenção:
Compartilhar leituras, versos e emoção.
Hoje não sou apenas quem ama ler,
Sou quem descobre, aos poucos, o prazer de escrever.

Seja bem-vindo(a) a este espaço que é lar,
Onde livros e poemas aprendem a conversar.
Aqui começo uma nova jornada, enfim:
Entre linhas, rimas… e tudo que existe em mim.