Acordo antes do sol,
mas não é a luz que me desperta
é o peso invisível
que repousa sobre o meu peito.
Há uma catedral de apreensões
erigida dentro de mim,
onde cada pensamento ecoa
como um sino fúnebre anunciando
um desastre que nunca chega,
mas nunca deixa de ameaçar.
Vivo na iminência do improvável.
Qualquer silêncio vira presságio,
qualquer olhar, julgamento,
qualquer passo, precipício.
Tenho medo do ridículo,
do tropeço público,
de falhar diante de olhos imaginários
que me condenam sem piedade.
E ainda que nada aconteça,
meu corpo já treme como se o mundo
tivesse ruído.
Meus pensamentos são aves inquietas,
batem contra as paredes da mente,
repetem imagens indesejadas,
cenas que não escolhi assistir.
Não tenho domínio sobre essa orquestra caótica
que insiste em tocar
mesmo quando imploro silêncio.
Depois das tempestades da vida,
fico em vigília eterna.
O pavor se instala
como hóspede permanente.
Minha musculatura vive em estado de guerra,
cada fibra tensionada
como se eu precisasse fugir
de um perigo sem rosto.
As dores florescem pelo corpo
como cicatrizes que ninguém vê.
O estômago se contorce em revolta,
o intestino protesta em descompasso,
como se também ele soubesse
que estou à beira de algo
sempre à beira.
Dormir é um território hostil.
Deito, mas não descanso.
Minha mente não aceita tréguas,
não se desconecta,
não silencia.
E há essa sensação cruel de insuficiência,
de não ser bastante,
de estar sempre devendo ao mundo
uma versão melhor de mim.
Caminho triste,
sem motivo exato,
como quem perdeu algo
que jamais soube nomear.
Às vezes sinto que vou morrer.
Assim, de repente.
Como se o coração estivesse prestes a desistir
ou como se o ar resolvesse
não voltar.
E me pergunto, em segredo:
isso um dia vai me deixar?
Será que haverá uma manhã
em que acordarei leve,
sem a expectativa do abismo?
Um dia em que o silêncio
não soe como ameaça,
mas como paz?
Enquanto isso,
respiro como posso,
sobrevivo como sei,
e carrego dentro de mim
essa guerra invisível
que o mundo chama de ansiedade
mas que, para mim,
é simplesmente viver
à sombra do medo.

