Carta Para o Tempo

Olá, Tempo
sou eu, teu velho amigo.
Escrevo-te agora porque desconfio
que já não terei tanto de ti quanto tive.
E antes que tu me leves,
quero te agradecer.

Obrigado pelo que me deste:
do primeiro berro molhado ao último suspiro maduro.
Obrigado pelo caminho inteiro,
mesmo quando tropecei nele.

Nasci chorando;
disso lembro pouco.
Mas vou partindo sorrindo,
pois fiz tudo o que desejei
ou ao menos tudo que tive coragem de desejar.

Obrigado pelos meus pais,
que não puderam estar sempre,
mas estiveram o bastante
para me ensinar a caminhar sem mãos.

Obrigado pelos amigos da infância:
não ficaram, é verdade,
mas a lembrança deles ainda brinca nos quintais
que guardo na memória.

Obrigado pelos sabores que pus na boca,
pelas doenças que sobrevivi,
pelos medos que me ensinaram prudência
e pelos erros que me ensinaram vergonha.

Obrigado pela profissão que hesitei em escolher,
mas que acabou escolhendo a mim.
Ali me encontrei,
ali me fiz útil,
ali aprendi a existir para mais alguém além de mim.

Obrigado pela mulher que caminhou ao meu lado
por quase toda a minha vida
ela, meu porto,
meu silêncio,
minha última casa.

Obrigado pelos filhos que vieram de nossas mãos:
foram bênçãos disfarçadas de trabalho,
amor que exige, amor que salva,
amor que fica até depois que a gente vai.

Obrigado pelos animais que me ensinaram
a alegria que não fala
e a saudade que não reclama.

Obrigado pelas pessoas que ficaram
e pelas que só passaram
umas foram abrigo,
outras foram vento;
mas até o vento leva folhas
a lugares que jamais iriam sozinhas.

Obrigado pela vida inteira que me deste,
pelos dias que me esqueceram
e pelos dias que guardarei até o fim.

E agora… agora o relógio
anda mais devagar que o coração.
Meu corpo se cala,
meus olhos piscam mais longos,
e as palavras começam a ficar pesadas
como quem se despede carregando mala.

Sei que em breve você me chamará
e não te temo.
Afinal, Tempo, foste justo comigo:
me deixaste viver,
me deixaste amar
e, acima de tudo, me deixaste lembrar.

Se eu puder pedir algo antes de ir:
cuida dos meus.
Que continues gentil com eles
como foste comigo.

E assim encerro esta carta
com o mesmo fôlego que encerra a vida:
lentamente,
em paz,
com gratidão.

Até breve, velho amigo…
o resto é silêncio.

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