Acordo antes do sol,
mas não é a luz que me desperta
é um peso antigo, viscoso,
que repousa sobre o peito
como se a própria manhã
pedisse desculpas por existir.
Levanto-me por inércia,
um corpo que cumpre rituais
sem a bênção da vontade.
O mundo passa por mim
com risos que não me pertencem,
vozes que ecoam
num idioma que desaprendi a sentir.
Há um vazio elegante em mim,
quase sereno em sua crueldade,
como um salão vasto
onde outrora dançavam afetos
e agora apenas o eco
faz companhia ao meu nome.
Caminho entre pessoas
como quem atravessa um sonho alheio,
vendo bocas sorrirem
com a mesma distância
de quem observa estrelas mortas.
Pergunto-me em que esquina da alma
deixei cair a centelha
em que instante distraído
abandonei o mapa
que levava de volta a mim.
Às vezes penso
que desaparecer seria apenas
um gesto discreto do universo,
uma página virada sem ruído,
e que talvez ninguém notasse
o silêncio onde antes havia minha respiração.
Mas, em algum lugar quase imperceptível,
existe ainda uma fresta
ínfima, teimosa
por onde imagino
que a sensação de existir
possa um dia voltar a florescer.
Não como fogos de artifício,
mas como a primeira gota de chuva
num deserto paciente.
E sigo…
não por coragem, talvez,
mas por uma curiosidade fatigada
de saber se, em algum amanhecer improvável,
meu coração recordará
o antigo ofício de sentir.
Até lá, carrego este crepúsculo dentro do peito,
um dia após o outro,
como quem guarda uma carta não lida
esperando que, em algum momento,
as palavras finalmente façam sentido.

