Eu te amei
como quem segura água nas mãos
sabendo que escorreria,
mas tentando mesmo assim.
Te amei com a devoção
de quem acredita que o amor
é altar e sacrifício
ao mesmo tempo.
Meu coração era um jardim
plantado com o teu nome,
e cada flor que nascia
sabia o som da tua voz.
Mas você era tempestade.
E eu…
eu era apenas pétala.
Quando me pediste distância,
obedeci como quem rasga a própria pele
sem gritar
porque amar também é calar.
Entre o dever e o desejo
eu me perdi de mim.
Fui filha antes de ser mulher,
fui silêncio antes de ser amada.
E quando teu olhar
já não pousava mais em mim
com ternura,
algo dentro do meu peito
começou a afundar.
Meu pai caiu pelas tuas mãos,
e junto dele
caiu o último fio
que me prendia à lucidez.
Passei a cantar para as águas,
confiando segredos ao vento,
colhendo flores como quem colhe
os pedaços da própria alma.
Diziam que era loucura.
Mas era excesso de amor
num mundo que só sabia ferir.
E naquela tarde pálida,
entre lírios e ramos partidos,
deitei-me sobre o espelho do rio
como quem se entrega
ao único abraço
que não rejeita.
A água me recebeu
com mais delicadeza
do que teus braços
jamais receberam.
Afundei lentamente,
não por desespero
mas por cansaço.
Porque amar sozinha
é morrer aos poucos.
E se perguntarem por mim,
diz que fui flor
que floresceu demais
num inverno que não a quis.
Diz que meu amor
era vasto como o mar
e que nele
eu mesma me perdi.

